Sérgio Godinho: Com um brilhozinho na voz

Fez música para homens, para mulheres, para revoluções e até para bonecos. Deixou o francês para os beijos e o português para as canções que todos sabemos de cor e que há quase 50 anos que vão por aí, de boca em boca. Sempre com o mútuo consentimento de quem canta e quem ouve. O seu nome é Sérgio Godinho, homem que canta uma Nação Valente e que agora celebra 75 anos de vida.

São quase 50 anos de canções, num percurso marcado inicialmente pela edição em 1971 do ep Romance de Um Dia Na Estrada e pela edição mais recente de Nação Valente. Sem intervalos na inspiração. Pelo meio há pelo menos tantas histórias quantas as canções, histórias de um homem que pegou numa língua e a fez sua, abraçando como nenhum outro o lugar-comum para lhe dar a finura do pensamento mais rebuscado, transformando, de facto, vida em poesia e vice-versa também. Sérgio tem neste estranho 2020 pisado palcos, forma de assinalar os seus valentes 75 anos de vida cheia.

O bilhete de identidade de Sérgio Godinho refere que nasceu no Porto, em 1945, o que o coloca no arranque dos anos 60 quando a adolescência rebenta dentro de si. E nesse tempo, como de resto hoje, essa explosão assumia muitas vezes o som de uma guitarra.

Oriundo de uma família com uma inclinação natural para as artes, Sérgio ainda estudou piano, mas não desenvolveu mais os estudos de música até que aos 16 anos arranjou então a sua primeira guitarra.

A escola levou-o primeiro a cursar Economia no Porto, até aos 20, e a abalar para a Suíça para estudar com Jean Piaget. Mas economia só mesmo a das palavras e psicologia a das canções que entram fundo na cabeça das pessoas.

A paixão por Dylan, pelos Beatles, por Leo Ferré ou por Jacques Brel, que já levava na bagagem quando partiu, fê-lo ter certezas em relação às artes. Impedido de regressar a Portugal por ter tomado a opção de não cumprir serviço militar, Sérgio Godinho fez-se ao mar: literalmente.

Trabalhou no porto de Amesterdão que Brel cantou, foi embarcadiço até à Jamaica e no final de 1967 rumou a Paris para sentir na cara os ventos de liberdade que depressa ganhariam força com o Maio de 68.

E foi aí que começou a escrever canções. Em francês, primeiro.

Do rock and roll a Paris

«Mas isso era precisamente porque não conseguia encontrar na minha língua como ser exigente e original», explica o cantor. Sérgio Godinho conta que as primeiras experiências de escrita em português o colocavam demasiado próximo de Zeca Afonso para se sentir a si mesmo como escritor de canções: «aquilo não era eu…». Sérgio elabora:

«O Zeca era genial e estimulou-me sempre muito. Uma coisa é estimular e outra coisa é influenciar-te. O impulso criativo pode ser estimulado por coisas que não me influenciam directamente. E quando eu encontrei isso, e foi uma coisa muito súbita, essa adequação de uma linguagem própria ao meu imaginário e na minha língua e tudo isso… foi uma coisa quase torrencial».

Esse período de descoberta corresponde à fase em que trabalhava como actor numa produção do musical Hair, um dos veículos da mentalidade libertária dos anos 60. «Houve uma altura em que houve um dique que se abriu e isso foi uma epifania. Porque depois tudo parecia simples».

Todas as descobertas conjugadas com o início da amizade com José Mário Branco concorreram, após o Maio de 68, para que as canções fossem sendo encaradas cada vez mais a sério.

Mas entre esse momento e a estreia em disco, ainda haveria a experiência teatral como parte do elenco de Hair e depois como integrante do Living Theatre, uma companhia de vanguarda muito sintonizada com o espírito revolucionário da época com quem foi até ao Brasil em 1971, onde teve a sua primeira experiência de prisão. Integrar uma companhia de hippies num país então a braços com a ditadura teve como consequência dois meses de prisão e uma acusação de posse de «maconha».

Anos mais tarde, quando se preparava para regressar a Lisboa depois te uma temporada no Brasil a preparar o álbum Coincidências (1983), esse primeiro processo voltou a reaparecer e Sérgio foi novamente detido no aeroporto e encarcerado por mais 33 dias. «É uma história muito longa e bem documentada», diz Sérgio, procurando avançar para terrenos mais próximos da música.

Mas ainda importa saber o que lhe deu o teatro: «Sim, quando canto também represento. É um jogo intermédio entre estar a fazer mesmo personagens. Quando interpreto as minhas canções num palco não encarno completamente um personagem alheio. Encaro a minha visão de um personagem alheio.  O que eu acho é que há uma vertente gestual, de expressão, de orientação que tem a ver com o teatro. Por isso que não fico agarrado à guitarra em muitas canções porque eu gosto de me mexer. Gosto de me mexer, de interagir com os músicos no palco. O palco é o nosso território de partilha com o público e gosto dessa mobilidade».

Dos 70s aos 80s

A estreia de Sérgio Godinho foi também a estreia a solo de José Mário Branco, figura ímpar da música portuguesa que desapareceu em finais de 2019: o cantor tocou viola e contribuiu com quatro letras para o registo inaugural de José Mário, preparando assim o seu próprio caminho para a estreia no mesmo ano com o ep Romance de Um Dia Na Estrada, que aconteceu na mesma Sassetti que já tinha lançado Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades. Os Sobreviventes e Pré-Histórias seriam então lançados no ano seguinte, inaugurando assim para Sérgio Godinho uma década de intensa criação em que lançaria ainda À Queima Roupa (1974), De Pequenino se Torce o Destino (1976), Pano Crú (1978) e Campolide (1979). «Se calhar nessa altura tinha uma urgência de criar», justifica. «O que aconteceu também foi uma grande mudança na minha vida: os meus dois primeiros discos foram feitos no exílio e depois as circunstâncias alteraram-se». A revolução de que Sérgio Godinho parece falar nas entrelinhas é mesmo a sua, interior e artística: «No meu primeiro disco havia, apesar de tudo, um universo consistente, não foi uma coisa só esboçada e tem canções que eu acho que se aguentaram muito bem. Mas não gosto muito…», hesita Sérgio Godinho, «acho muito insuficiente o cantor que lá está porque cantei a medo. Já o segundo disco, o Pré-Histórias, satisfaz-me muito mais a esse nível».

Gravado nos mesmos Strawberry Studios, no Chateu D’Herouville em França, em que os Pink Floyd trabalharam também em 72, aí gravando Obscured By Clouds, Pré-Histórias precedeu mais uma viagem, desta vez até Vancouver no Canadá, onde residia quando se deu o 25 de Abril. Até aí, Sérgio era um cantor longe do seu país, que lidava com a censura de forma a conseguir fazer-se ouvir: «Algumas das letras estavam no limiar, mesmo, tanto as minhas como a do Zé Mário. Só que nessa altura a censura já estava no limite, estamos a falar do marcelismo. A censura já não sabia como ser coerente consigo própria e portanto tanto autorizava como depois, quando houve os Prémios da Imprensa – que foram atribuídos a mim, ao Zé Mário e ao Zeca – que eram uma uma manifestação de engajamento, os discos a seguir foram proibidos, foram retirados do mercado».

A primeira visita de Sérgio a Portugal após nove anos de exílio foi breve, durou apenas duas semanas, mas deu para perceber o clima «eufórico» em que Portugal vivia. Regressou ao Canadá, onde a sua filha Jwana estava prestes a nascer, mas depressa percebeu que não podia estar longe muito mais tempo. Essa é a época dos engajamentos, mas apesar de ser um apoiante e defensor de causas universais, Sérgio Godinho – que passou esse período a cantar «em condições muito precárias» com o Fausto, o Zeca Afonso, o Zé Mário Branco – não abraçou de forma pacífica o papel de «cantor de intervenção»: «eu sempre reagi contra essa expressão, já na altura reagia, e há outros que reagem, o próprio Zé Mário… só porque acho que não define nada e sobretudo restringe o âmbito do meu trabalho».

Sérgio preferiu assim manter-se no seu caminho e não aderiu a partidos: «Não está mesmo no meu código genético. Ia onde as coisas me faziam sentido. Ia pelo caminho mais pessoal, reflectindo o que estava acontecer, traduzindo isso em criação. E não é por acaso que os meus discos de linguagem mais política – À Queima-roupa e o De Pequenino se Torce o Destino – datam desse período. Foram reflexões musicais que eu achei interessantes. Há alturas em que se fala mais de uma determinada maneira, dialectos… a gente vai apanhando as vozes».

Artista da rádio e da televisão

Sérgio entrou com algum estrondo na década de 80, ao assinar a banda sonora para o clássico do cinema português Kilas, O Mau da Fita, prosseguindo assim um trabalho de escrita para o grande ecrã iniciado na década anterior. Em 1981 edita também Canto da Boca, o álbum de «Com Um Brilhozinho nos Olhos» que o manteve nas rádios e com os favores do público, apesar de outras «vozes do 25 de Abril» começarem então a sentir os efeitos da mudança de atenções para o terreno do rock português, então em pleno boom. «Houve ali uma desvalorização, “vamos lá apagar este período”, e houve um boicote não assumido porque muitas vezes as coisas em portugal não são muito assumidas».

O que Sérgio já assumia em toda a sua força era a língua, até como património comum que nos unia ao Brasil. Data de 1983 o álbum Coincidências em que Sérgio colabora com artistas como Milton Nascimento (que faz a música de «A Barca dos Amantes» que Sérgio destaca como «especial»), Chico Buarque ou Ivan Lins. «Tinha estado preso no Brasil, outra vez, uma longa história… Mas esse era um disco que eu queria que fosse todo feito com parcerias brasileiras. Acabou por ser um disco misto e se calhar ainda bem. Mas é uma altura também muito jazzística, com o João Paulo Esteves da Silva e o Luís Caldeira. Há muita força nesse disco».

A década de 80 de Sérgio Godinho fez-se ainda com os álbuns Salão de Festas (de 1984, com temas como «Coro das Velhas»), Na Vida Real (uma produção de António Emiliano, de 1986, que inclui «Lisboa que Amanhece» e que anuncia já uma vontade de explorar outras sonoridades) e ainda Os Amigos de Gaspar (de 1988) e Aos Amores (de 1989, trabalho que inclui «Que Lástima, Querida Fátima» e «Alice no País dos Matraquilhos»).

As experiências de Sérgio Godinho com a escrita para crianças, que já vinham d’A Árvore dos Patafúrdios, ganharam um novo fôlego com Os Amigos de Gaspar, um disco que os saltos de geração levaram a que ganhasse uma nova relevância num presente em que gente como B Fachada e os Clã – não por acaso dois nomes com que Sérgio já trabalhou – investiu igualmente no «mercado» dos mais novos. «Acho que foi mesmo inovador e eu tive um enorme prazer em participar. Já tinha havido A Árvore dos Patafúrdios e depois veio Os Amigos do Gaspar. Foi mesmo um fenómeno porque muita gente encontrou uma linguagem naquilo que era muito próxima deles e que tinha muito a ver com A Rua Sésamo que também trouxe uma frescura enorme. Aquelas crianças foram privilegiadas». Sérgio, no entanto, faz questão de repartir os louros de uma criação que repousa no imaginário de uma geração: «Foi inovador. Mas a responsabilidade é muito repartida. Para já as músicas são do Jorge Constante Pereira, não são minhas… eu escrevi as letras e claro que imprimi um tom também. E o João Paulo Seara Cardoso, que infelizmente morreu este ano, e que era o inventor de tudo aquilo, dos bonecos. Ele fez um trabalho fabuloso e depois chegou a trabalhar com o Jim Henson, d’Os Marretas».

Dos 90 em diante

Sérgio Godinho contabiliza apenas dois álbuns de originais nos anos 90, mas nem por isso deixou de se manter extremamente ocupado, não abrindo, afinal, espaço para as tais pausas que também contam na hora de medir carreiras. Além de um resumo da matéria dada na compilação O Elixir da Eterna Juventude (de 1996), há ainda as importantes edições de Tinta Permanente (álbum de 1993 com «O Primeiro Gomo da Tangerina») e Domingo no Mundo (de 1997, com «Correio Azul», por exemplo). Mas o que de facto marca esta década é a sua «descoberta» do palco no que à discografia diz respeito com o lançamento de Escritor de Canções (1990), Noites Passadas (1995) e Rivolitz (1998). «Eu sempre quis fazer discos ao vivo porque prezo muito as vidas diferentes de cada canção», adianta Sérgio Godinho, em jeito de justificação. «Como ouvinte, sempre me interessei muito em ouvir versões diferentes e versões ao vivo e como isso é uma energia diferente que está ali. Sempre fui um fã de discos ao vivo e nunca o fiz antes porque nunca aconteceu. E nessa altura comecei mesmo a impor essa vontade».

Muito provavelmente, por essa permanência nos palcos passará alguma da explicação para a intimidade que Sérgio foi sendo capaz de manter com uma geração de artistas posterior à sua, que sempre se identificou com a sua forma particular de mexer na língua e que não deixou de o abordar para colaborações. Dos Silence Four aos Diva, dos Despe & Siga aos Da Weasel, Sérgio Godinho passou nos anos 90 a ser um nome reclamado pelo presente. «Muitas vezes foram eles que vieram ao meu encontro, de facto, porque se relacionavam musicalmente comigo, por um lado, e directamente com as canções, por outro. Eu não crio esse tipo de divisões geracionais, eu próprio não acredito muito nesse termo “geração”. Acho que isso são divisões artificiais». E por isso mesmo, de forma natural, Sérgio explica que os encontros foram acontecendo «nas esquinas da criação»: «E eles ensinam-me coisas e eu ensino-lhes coisas, quer dizer dou-lhes… e eu não parei de aprender também». Evidentemente.

Antes de Mútuo Consentimento, Sérgio Godinho ainda lançou os álbuns de originais Lupa (2000) e Ligação Directa (2006) a que há que acrescentar para maior nitidez do retrato do artista enquanto veterano os discos ao vivo Afinidades (editado em 2001 e resultado de uma colaboração com os Clã), De Volta ao Coliseu (DVD de 2004), Nove e Meia no Maria Matos (2008) e Três Cantos ao Vivo (documento do espectáculo com Fausto e José Mário Branco, lançado em 2009). Há ainda a colecção de duetos com gente como Caetano Veloso, Jorge Palma, Rui Veloso, David Fonseca, Tito Paris ou Vitorino que levou o título revelador de Irmão do Meio, que é uma boa maneira de descrever Sérgio. Mais confortável no presente do que nas brumas da memória, Sérgio confessa não ser capaz de identificar o seu período «vintage»: «Pode haver, mas não sou eu que o defino. Cada pessoa tem que definir o seu vintage… não sou eu que o vou editar, não sou eu que o vou comercializar. Há canções que eu gosto mais do que outras que vão ficando, mas essas também as cantei ao vivo ou em antologias onde eu meti uma grande colherada criativa». Como o livro que aí vem com 40 letras de Sérgio Godinho ilustradas por outros tantos artistas: «Senti que havia canções que ficavam bem em ilustrações e escolhi de todos os discos. É uma viagem». Sem fim à vista.

Os últimos anos trouxeram um álbum de versões materializado em Caríssimas Canções, trabalho de 2013 em que visitou “monumentos” como “People Are Strange”, “Os Vampiros” ou “Heartbreak Hotel” de referências como os Doors, Zeca ou Elvis. Ainda cantou a Liberdade ao Vivo (2014) e, uma vez mais nos palcos, mas com Jorge Palma ao lado, fez o álbum Juntos ao Vivo no Theatro Circo (2015) antes de ter então criado a sua mais recente obra, Nação Valente, trabalho que lançou em 2018.

A Lia Pereira, da revista Blitz, explicou tudo direitinho: “Há muita gente que diz: “é surpreendente e é mesmo a tua cara, é um título valente”. E depois dois ou três amigos disseram-me: “cuidado, que é o hino”… Claro que eu sei que é o hino, mas quis extirpar o título de qualquer conotação nacionalista, no mau sentido do termo. Se se ouvir a canção, “Nação Valente”, [percebe-se que] é muito positiva e mais próxima de uma noção do Portugal atual. Fala, ainda que em termos metafóricos, do pós-troika, quando diz “não quero ver-te acorrentada, sofrendo por tudo e por nada, não quero ver-te numa gaiola, de mão estendida por esmola, não quero ver-te endividada“. A canção diz: “há que ir em frente, nação valente“, e depois tem um refrão extremamente positivo, que é “fronteiras antigas, fronteiras abertas, quero um país de ideias libertas“. Porque temos, de facto, fronteiras firmadas há muito tempo – na Europa, somos um dos países mais antigos, a nível de fronteiras fixas -, mas também têm de ser abertas no sentido simbólico. Abertas ao outro. Que haja pontes para outros países, no sentido simbólico e no nosso sentido pessoal. Quando falo do país, falo também de mim e dos outros. “As mágoas da vida, e da vida as ofertas” – há ofertas que nos passam à frente e não conseguimos apanhar”.

E é isto: este homem valente, de 75 anos cheios de palavras e histórias, continua a cantar este país, oferecendo-nos cantigas daquelas que correm mundo, pois há portugueses em todos os cantos.