João Carlos Callixto: “O momento presente é dos mais fervilhantes da música dita popular em Portugal”

João Carlos Callixto é muitas coisas: homem da rádio, com múltiplos programas nas estações públicas, arquivista e colecionador, investigador e divulgador, autor de obras de pesquisa, curador de memórias. Pelo que tê-lo a cuidar das nossas canções de sempre é uma garantia de que a nossa história será continuamente revisitada na sua playlist.

O que pensa de uma plataforma como a Portugal Muito Maior? Acha que poderá ser uma ferramenta útil para os artistas portugueses usarem na construção internacional das suas carreiras?

Sem dúvida. A “Portugal Muito Maior” pode ser a “pedra de toque” necessária para que artistas nacionais possam chegar a públicos internacionais e também para que esses mesmos públicos descubram, por diversas formas, a música que se faz e fez em Portugal. Só de forma concertada isto se torna mais exequível e penso que aí a PMM pode marcar a diferença.

Qual a ideia base para a construção da sua playlist?

Respondendo ao convite do João Gil, o que pretendo é que cada playlist possa ser um retrato de cerca de 50 anos de música dita popular em Portugal, entre meados e final do século XX, tanto apresentando canções incontornáveis da nossa memória musical como outras que foram conhecidas no seu tempo mas que, por diversas razões, foram ficando esquecidas. Desta forma, tanto podem passar por aqui os universos da canção ligeira, como do rock, como dos cantautores de antes e de depois de 1974 como ainda do fado e/ou de tudo isto bem cruzado. E, claro, sempre com surpresas – boas, espero!

A música dita popular em Portugal tem múltiplas nuances e evoluiu muito ao longo das décadas. Como diria que se define no presente?

O momento presente (passando por cima das contingências que se esperam temporárias relacionadas com a pandemia…) é dos mais fervilhantes da música dita popular em Portugal. Temos músicos muito bem preparados em termos técnicos, com estudos sólidos na área como há pouco tempo não era ainda possível quase prever, e temos um crescente interesse em termos de perspectiva histórica, o que leva a que as actuais gerações sejam muito marcadas não só pelo que se faz fora de portas (como sempre aconteceu entre nós) mas também cada vez mais por nomes nacionais dos anos 60, 70 ou 80, de diversas áreas – o que só enriquece a nossa criação musical.

Tem conhecimento de músicos desta área luso-descendentes ou portugueses a trabalharem no estrangeiro, com carreiras lá fora?

Há sempre um leque grande de nomes luso-descendentes e que muitas vezes nos passam ao lado, como a cantora belga Wendy Nazaré, que alcançou sucesso na sua Bélgica natal ou em França; ou o anglo-indiano Oliver Sean, com diversos trabalhos nos últimos 20 anos e que integra o painel de jurados para os Grammys. Posso ainda referir grupos de rock como os canadianos Ménage, o americano Manel the Island Man ou a inglesa Nessi Gomes.

A música popular dependeu sempre muito do circuito de concertos. Como vê os músicos desta área a lidarem com as actuais circunstâncias?

Os músicos têm sabido “reinventar-se” e reinventar as suas carreiras, quer através de “concertos caseiros” mais “lo-fi” quer através de estruturas comuns em que se proporciona algo mais “estruturado” e que prevêem uma justa remuneração. Houve também músicos que aproveitaram esta pandemia para gravar em colaboração novos trabalhos que, lentamente, começam a chegar ao mercado. No entanto, a recente reabertura das salas de espectáculos vem trazer um importantíssimo alento para toda a classe – já que mesmo com as salas a 50% será viável e rentável (e essencial!) voltar a programar a nossa música. Tem-se visto, aliás, um maior aumento do interesse na mesma, até por uma questão de “facilidade logística” – o que, neste caso concreto, é mesmo importante por permitir uma nova exposição dada a nomes que, com maior ou menor percurso, têm muitas vezes na sua arte tudo o que é necessário para chegar a um público maior. Faltam, por estranho que possa parecer, as plataformas –  e a “Portugal Muito Maior” tem tudo para ser uma das mais importantes nesse campo!

Descobre as Playlists de Música de Sempre com a curadoria do João Carlos Callixto na Rádio Portugal Muito Maior.