George Lopes: “A música tem uma presença constante na minha cabeça”

Cresceu a ouvir música, a simular acordes de guitarra numa raquete de ténis e, conta, quando recebeu a primeira bateria, ainda miúdo, a sua vida nunca mais foi igual. É no palco que George gosta de se exprimir, é na música que põe tudo aquilo que sente. A viver no Canadá, concorreu e ganhou o prémio ‘Rock Performance’, nos International Portuguese Music Awards, com a banda Social Hysteria. É também dessa experiência que nos fala em entrevista. 

Fala-nos um pouco da tua relação com a música.

A minha relação com a música às vezes é uma [relação] de terapia, outras vezes de revolta, outras vezes de euforia. Tanto a nível de escrita de música, como a nível de querer ouvi-la. Tem uma presença constante na minha cabeça, talvez a um nível um pouco doentio. Tentei afastar-me do mundo da música há uns anos quando a minha primeira banda terminou e me mudei para o Canadá. Foram os piores dois anos da minha vida…

Além da herança musical que tiveste em casa, quais as tuas primeiras memórias com a música?

As minhas primeiras memórias, para além dos meus pais e tios serem músicos, são de ouvir a rádio com a minha irmã e com os meus primos em casa da minha avó materna e depois pegar na raquete de ténis que havia lá em casa e fazer de conta que era uma guitarra. Inventava as minhas próprias músicas, letras e tudo. Na altura, que eram os anos 80, os artistas que mais passavam na rádio eram Madonna, Michael Jackson, Prince, etc…

Como e quando começaste e qual foi o primeiro instrumento que tocaste?

Quando fiz sete ou oito anos o meu pai, baterista, montou-me a bateria dele no meu quarto, e a partir daí nunca mais parei.

O que é que te inspira a cantar e a tocar?

O que me inspira a cantar e tocar num palco é simplesmente o prazer que me dá, de me poder exprimir da maneira que mais gosto e poder partilhar esse prazer com o público. Mas o que me inspira a cantar e a tocar em casa é a possibilidade de exprimir o que sinto e o que penso.

Quais são as tuas principais influências musicais?

São várias, as maiores vieram do rock chamado alternativo, que teve origem no início dos anos 90. Mas ao longo dos anos, o leque tem-se alargado bastante.

Além de teres actuado em Portugal, qual o contacto que tens com a música e os músicos portugueses?

Tendo feito parte de uma banda em Portugal nos anos 90, fiz bastantes amigos e conheci muita gente com quem ainda vou mantendo contacto, mais através do Facebook e Instagram. Muitos dos meus amigos ainda são músicos ou continuam ligados à indústria de uma maneira ou de outra. Os International Portuguese Music Awards têm feito um excelente trabalho em trazer a música Portuguesa para a América do Norte, por exemplo. Também conheci produtores, promotores e organizadores de festivais e outros eventos culturais, que me vão mantendo informado.

Costumas estar a par das novidades da música em Portugal?

Não tanto quanto gostaria, mas vou conhecendo alguns de vez em quando. Gosto muito da música da Márcia, do Salvador Sobral, da Luísa Sobral, do António Zambujo. Mas também continuo a gostar de Mão Morta, Blind Zero, Zen, etc…

Conheces ou tens ligação a outros músicos lusodescendentes na cidade onde vives? Partilha com eles o género musical, ou são estilos diferentes? 

Sim, conheço. Alguns partilham o mesmo género e outros não, mas damo-nos todos bem. 

Existe alguma conexão especial pelo facto de partilharem a ligação a Portugal?

Existe, só por sermos portugueses ou filhos e filhas de portugueses já há uma ligação especial porque há uma subcultura (se é que podemos chamar-lhe assim) do português no Canadá. Existem hábitos, costumes e dizeres que só nós é que temos e frequentemente achamos graça.

Que conselhos darias a quem está em fase de lançamento de carreira?

Não tentem imitar ninguém. Sejam vocês próprios. E se alguém notar, é bem. Se não notar, não quer dizer que não sejam suficientemente bons. A realidade da indústria musical é que há que fazer dinheiro, por isso muitas das vezes, a pergunta que se faz não é ‘o que é que é’ bom?’, é mais ‘o que é que vai vender?’. Alguns músicos estão no negócio de fazer música, outros estão no negócio de fazer dinheiro.

Que passos foram importantes para o nascimento e crescimento da tua banda?

Perder a vergonha de cantar ao vivo, e investir num estúdio e num produtor de qualidade. Ter um bom promotor de rádio ajudou bastante, se não o tivéssemos feito, talvez nunca tivéssemos entrado no top 60 do Rock Canadiano, como fizemos.

Em relação ao prémio dos International Portuguese Music Awards, podes partilhar um pouco da tua experiência? 

A experiência foi espetacular. Já tínhamos sido nomeados no ano anterior, em duas categorias, mas não ganhámos. Quando se ganha, é um bocadinho melhor. Foi uma surpresa e um prazer enorme ver e conhecer o Nuno Bettencourt, que sempre foi um ídolo, desde adolescente. Também conheci o baterista da banda dele, dos Extreme, o Kevin Figueiredo, que também é lusodescendente, uma pessoa excepcional e músico incrível. Conheci outros artistas, por breves instantes, que sempre admirei, como a Rita Guerra, e no ano anterior, o Carlão. 

O prémio trouxe-te mais projeção? E ligação a outras bandas ou artistas lusodescendentes?

Sim, trouxe mais projeção. Não se refletiu muito a nível de seguidores em redes sociais ou em vendas de música, mas certamente trouxe mais projeção e abriu muitas portas que até à altura estavam fechadas.