Daniel Pereira Cristo: “Sonho sempre com o mercado global da World Music”

Daniel Pereira Cristo é um artista, mas também um activista, um pedagogo e até um sonhador. Mestre no cavaquinho, com uma longa experiência que começou por acumular por via familiar, o músico tem-se afirmado como um defensor inequívoco do cavaquinho, instrumento central na sua obra. É também membro da Associação Cultural Museu do Cavaquinho que muito tem feito pela preservação, divulgação, estudo e desenvolvimento de um cordofone que é fundamental para a nossa identidade musical nacional.

O teu contacto com a música de raiz tradicional ocorre por via familiar. Mas tendo nascido em 1979, cresceste durante os anos 80 com toda a explosão do rock em português. Nunca pensaste, enquanto artista, seguir outro caminho?

Tive e fiz parte de várias “bandas de garagem” com os meus amigos de infância: os “Suspeitos do Costume” e, mais tarde, com amigos da Universidade do Minho, nos “Neurónios aBariados”; fazia parte da banda o comediante de stand-up João Seabra e corremos muitas recepções ao caloiro e queimas das fitas pelo país fora… a irreverência era o mote e lançamos um álbum com originais e um tributo a António Variações. Tudo isto paralelamente com o “Origem Tradicional” para onde fui com apenas 9 anos, há 32 já, e onde, posso dizer, me formei como pessoa e músico, aprendendo e sorvendo dos outros tudo o que podia, mais tarde a banda folk do Porto “Arrefole”… isto é, a paixão pelos instrumentos e música de raiz, foi sempre crescendo comigo e, na verdade, sempre senti o apelo a trazer para a contemporaneidade a nossa música identitária. É nisso que acredito, é isso que me move e é aí que julgo posso fazer e, creio, tenho feito a diferença.

Fala-nos por favor do seu período formativo: o que é que se escutava em casa? Que música te captou a imaginação?

No pós-PREC, o meu pai fundou o Grupo Cultural de S. Mamede de Este e o grupo Origem Tradicional. Em casa ouvia-se Zeca Afonso, Fausto, Sérgio Godinho, Brigada Victor Jara, Terra a Terra, Raizes, etc… Ia aos ensaios e, sem pensar muito, tudo aquilo fazia parte de mim e vice-versa… O primeiro concerto oficial que fiz com o Origem, foi no dia 15 de Agosto de 1989 (tinha acabado de fazer 10 anos). Posso portanto dizer que embora tendo passado, como grande parte dos jovens, pelo Pop, pelo Rock, etc, sempre me identifiquei com a música tradicional e sempre quis fazer parte desse mundo e nos últimos anos tenho tido a militância de a fazer profissionalmente, com o maior rigor e produção possíveis, no sentido de a reinventar e de a colocar no presente!

A geração do José Afonso, Fausto, José Mário Branco, etc, ficou ligada a um período específico da nossa história e a música nasceu num contexto político tão particular que as pessoas por vezes esquecem-se do seu valor intrinsecamente musical. O que é que na música desses artistas te captou a atenção e te despertou mais fascínio?

Acima de tudo o poder da palavra e “a música como uma arma” como dizia o grande Zé Mário. A capacidade de todos usarem a música de raiz subliminarmente como pano de fundo. Em suma a capacidade de escrita e as melodias e harmonias que são brutais e das quais sou completamente fã. Para mim são a minha referência, sempre!

O cavaquinho é um instrumento que obviamente te diz muito: como é que o descobriste e o que é que te apaixonou num instrumento aparentemente tão simples?

O primeiro cordofone que comecei a tocar foi precisamente o cavaquinho (dos 7 para os 8 anos), ensinado pelo meu paciente pai que começou a levar-me também aos ensaios do Origem Tradicional. É um instrumento que é possível usar com afinações simples que possibilitam uma rápida aprendizagem para tocar várias músicas tradicionais simples. Depois perdi-me, com gosto, no meio dos tantos instrumentos tradicionais que tinha “ao dispor”… Viola Braguesa, Bandolim , Gaita de Fole, Percussão, o Violão, etc… foi assim que me tornei multi-instrumentista.

Uma das referências desse instrumento é Júlio Pereira. A discografia dele foi importante para ti? Deves, certamente, conhecê-lo pessoalmente?

O Júlio é uma referência incontornável na nossa música e instrumentos de raiz num sentido lato! Precisamente porque conseguiu trazê-los para o presente e dar-lhes um fulgor que certamente muitos nem sonhariam. O disco do “Cavaquinho” de 1981, para além de ter tido um sucesso retumbante, que fez com que tantos (novos e velhos) se apaixonassem pelo instrumento, foi uma “escola” para a grande maioria dos tocadores por elevar a “bitola”. Somos amigos há muitos anos (há uns 12) e camaradas na AC Museu Cavaquinho. O fã conheceu o mestre e tornaram-se bons amigos (risos).

Tens, como acabas de referir, uma ligação à AC Museu Cavaquinho. Podes falar-nos sobre isso, sobre a actividade dessa instituição e o seu papel de divulgador do instrumento e do seu repertório?

Na associação vamos tentado fazer o melhor possível de forma completamente voluntária… inventariando os grupos de cavaquinho, os tocadores, os construtores, etc, vamos tentando passar saberes de uns construtores/Luthiers para outros, para que tenham atenção a alguns detalhes, vamos fazendo oficinas tentando passar alguns conhecimentos a quem quer saber mais e tocar melhor, vamos apoiando a edição de discos (um deles foi o meu – “Cavaquinho Cantado”, vencedor do Prémio Carlos Paredes 2018), está agora um disco colectivo de tocadores de cavaquinho e braguinha para sair (12 tocadores e 12 peças inéditas). No fundo é um trabalho com coisas sempre por fazer porque não há estruturas oficiais, escolas ou conservatórios a fazerem esse trabalho.

Podes falar um pouco sobre o projecto “Cavaquinho Cantado”?

Foi o meu primeiro álbum em nome próprio e um trabalho que literalmente me mudou a vida. Foi um desafio do Júlio que sabia que gostava de cantar e era apaixonado pelo instrumento… até ali era um músico muito empenhado e amador no sentido literal da palavra. O Júlio confiou e achava interessante que se aliasse o cavaquinho ao canto (no fundo a coisa mais natural do mundo, mas o que é facto é que os discos editados até então de cavaquinho eram todos instrumentais). Conheci aí também o meu produtor, o grande Hélder Costa, e todos juntos, na altura com o Diogo Riço, o André Ramos, o André NO, o David Estêvão e já a Catarina Valadas e o Mário Gonçalves, construímos um disco que, como disse, mudou a minha vida porque me possibilitou ser profissional e fazer música – que é como respirar para mim! Sou feliz por isso e por ter arriscado! 

Ter recebido o Prémio Carlos Paredes há-de certamente ter sido importante?

Sem dúvida que o reconhecimento público é importante e estes prémios enchem-nos de orgulho e dão-nos força a prosseguir o nosso caminho nem sempre fácil. Aquilo que desejo mais do que os prémios, é que possamos ser reconhecidos pela nossa arte, e ser chamados a fazer o nosso trabalho, com novas criações, concertos e desafios, que no fundo dão sentido e sustentabilidade a tudo isto.

Presta-se, em Portugal, a atenção devida a quem faz este tipo de música, mais ligada às raízes tradicionais? Há espaço em festivais, rádios, media em geral?

O mercado português é mesmo muito pequeno e enquanto na área da Trad/World Music não formos muitos em quantidade e rigor significativos, também não criamos uma pressão no mercado (quer nos media, quer em programações, festivais ou festas). Hoje em dia temos que ser ultra-rigorosos na preparação de discos, concertos e produção dos mesmos… (a nossa música não é mainstream, pelo que o espaço é mesmo muito pequeno), sonho sempre com o mercado global da World Music e é aí que espero o “Portugal Muito Maior” possa ser uma forte alavanca!

Tens trabalhado com muitos outros músicos ao longo dos anos, de contextos muito diferentes. De que forma é que essa experiência te marca enquanto artista?

Depois do grande concerto no Terreiro do Paço para o qual formámos uma banda com 12 músicos, decidimos replicar essa fórmula numa série de concertos procedentes com muitos convidados especiais: Júlio Pereira, Ana Bacalhau, Rão Kyao, Tatanka dos Black Mamba, João Só, Uxia, Xabier Diaz, Aline Frazão, Manuel de Oliveira, entre outros. Fiz também um EP com a Gisela João que ainda não veio a lume. Logicamente que a oportunidade de tocar com gente que admiramos é logo fantástica e se a isso juntarmos a ajuda na mediatização do nosso trabalho, tanto melhor! Para além destes convidados especiais, tenho tido a oportunidade de trabalhar com os meus fantásticos músicos (o Mário Gonçalves, o André NO, o João Ferreira, o Rodrigo Peixoto, o David Estêvão – todos eles com influências muito diferentes do clássico ao jazz, do Rock ao Pop ou aos Blues), que me ajudam a fazer toda a diferença, colocando várias sensibilidades e backgrounds em função da minha música e da nossa música de raiz.

Quando tocas “lá fora”, confundem o cavaquinho com o ukelele?

O “neto” ou “primo”, tornou-se mundialmente famoso ao passo que o cavaquinho não… até em Portugal isso “infelizmente” acontece. E normal… só há uma coisa a fazer: boa música, a melhor que conseguirmos, com os nossos instrumentos seculares identitários, para os darmos a conhecer.

Como é que os públicos internacionais se relacionam com a tua música?

 As experiências que tive no estrangeiro foram de muito interesse pela nossa abordagem à música e instrumentos de raiz (lembro-me particularmente de Espanha, em especial a Galiza que ama verdadeiramente o que fazemos e a experiência mais exótica que tive em Baku no Azerbaijão, onde fizeram fila para conhecer o instrumento… e o tocador…) oxalá tenha a oportunidade de mostrar a nossa música e instrumentos étnicos pelos festivais que acontecem pelo mundo fora de músicas do mundo… esse é um grande sonho, desejo e objectivo!

Foi anunciada a realização em Portugal no próximo ano do Womex. Como é que recebeste essa notícia?

Só espero ter a oportunidade de mostrar a minha música por lá e tentar furar esse tão desejado mercado incrível que me apaixona e que, tenho a certeza, se nos conhecesse nos receberia bem, porque o que fazemos é bem feito e é “exótico” para eles.

Que planos tens para a tua carreira nos próximos tempos? 

Em tempos de todas as incertezas e mais algumas, só temos mesmo é que teimar e ser positivos!… é assim que encaro a vida e esta crise em particular. Tenho-me dedicado à gravação e produção de outros artistas, às oficinas que dou dos nossos cordofones tradicionais, alguns projectos que juntamente com o Hélder Costa e a nossa plataforma de trabalho – Arca de Sons – vamos desenvolvendo com municípios e a comunidade e, tentar sempre que possível, pisar o palco e fazer a minha música para os outros, porque lá é que estou bem e é assim que me sinto plenamente realizado! O sucessor do “Cavaquinho Cantado” maioritariamente com composições minhas, arranjos do Hélder e letras de Tiago Torres da Silva será para levar avante, venha o que vier, para lançar, espero, no 1º trimestre de 2021.