A casinha é um palco aberto ao mundo

Entre o fado, o rock ou a música tradicional, são muitas as sonoridades que cabem dentro desta Casinha, uma iniciativa pensada pelo vocalista dos Xutos que teve o seu arranque em finais de maio.

Estes Live @ A Casinha têm bilhetes à venda na BOL entre os 5 e os 10 euros, lotação limitada como qualquer sala “convencional” e som, luz e imagem cuidada, de forma a proporcionar a experiência mais segura aos profissionais, mas ainda assim com a qualidade a que os mais exigentes espectadores estão habituados.

Em Agosto já passaram pela Casinha, o palco virtual montado no estúdio dos Xutos & Pontapés, Tim (no passado dia 2), Gaspar Varela (dia 5), Tatanka (dia 6), Sebenta (dia 7) e Matilde Cid (dia 12), estando ainda programadas actuações de Jorge Fernando (dia 13), António Zambujo (dia 16), Duarte (dia 19), Ala dos Namorados (dia 20), UHF (dia 22), Marco Oliveira (dia 23), Celina da Piedade (dia 25), Sofia Ramos (dia 26), Peste E Sida (dia 27) e, finalmente, Helder Moutinho (dia 31).

Tim, que tem novo trabalho, 20-20-20, pensado para este ano, aceitou responder a algumas questões do Portugal Muito Maior sobre esta sua Casinha que tem portas abertas para o mundo.

Como é que surgiu esta ideia, em primeiro lugar?

Começou com os streamings que eu comecei a fazer, sozinho, com o meu filho Sebastião a ajudar a filmar. Pensei que aquilo podia ser um caminho, mas rapidamente percebi que o que estava a apresentar era muito fraquinho. Então resolvi falar com o Pedro Leston, que faz luz para mim ou para a Resistência e para mais uma série de gente. Pedi-lhe para me por lá uns candeeirinhos para aquilo ficar mais jeitoso em termos de imagem. O som podíamos nós tratar, mas a imagem precisava de uma ajuda. Ele foi lá, deixou lá umas coisas, levou o Paulo Correia, que é uma pessoa que trabalha em imagem, e começámos então a fazer umas transmissões com luz, som e imagem mais cuidadas. Estivémos ali no mês de Maio a fazer experiências, a testar plataformas, como se fazia, onde é que o som corria bem ou não. E depois chegámos a Junho com tudo estabilizado, pedimos ajuda à Xapa 13 para dar uma mão na parte do secretariado, conseguimos o apoio da BOL, que se dispôs a vender os bilhetes, e percebemos que podíamos abrir aquilo para mais artistas. Preparámos então lá nos Xutos um sítio com 6 metros quadrados, com som e luz como deve ser, onde qualquer artista se pudesse sentir bem. Resolvemos também que isto deveria ter um bilhete, de forma a que todos pudessem ser remunerados e também para ir habituando as pessoas que nem tudo na net é de borla.

Os concertos têm sempre os bilhetes a 10 euros e lotação limitada, certo?

A lotação para já tem sido limitada a 200 pessoas e os bilhetes têm preços entre os 5 e os 10 euros. A decisão final deixamos ao artista. Conseguimos também reunir alguns apoios, desde a equipa técnica, equipamento, e conseguimos criar um sítio adequado, onde os artistas podem sentir-se bem: os artistas vestem a sua roupa, preparam o seu número, sentem as luzes, a responsabilidade… e tem corrido de forma muito interessante e com uma grande entrega dos artistas.

Fazer estes concertos, ainda assim, é algo que mexe com uma equipa considerável, certo?

Sim: temos a Inha na comunicação, a Xapa 13 no secretariado, seremos umas 12 pessoas a trabalhar para que isto aconteça. Obviamente não todos lá no espaço, que estamos em regime de trabalho confinado e não podemos ter lá mais do que 10 pessoas de cada vez. Os artistas têm correspondido, já temos o mês de Agosto preenchido e Setembro quase fechado.

Como têm andado as assistências? É só gente em Portugal a assistir, ou há informações sobre espectadores noutros locais do mundo?

O máximo que vendemos foram cento e tal bilhetes. Mas gente de todo o lado: isto baseia-se muito nas redes dos artistas. Vejo isto muito como um espectáculo para os fãs mais chegados de cada artista. Não me parece que seja uma coisa para o público em geral. Ainda. Espero que possa vir a ser assim. Mas tem sido engraçado, porque cada artista faz a sua divulgação e então temos gente a assistir na Irlanda, Nova Iorque, Canadá… Os artistas a esse nível têm passado bem a mensagem: t~em espalhado que é um local agradável, que as condições são boas, mesmo tendo em conta a circunstância de não haver público real ali à frente. Podem manifestar-se no chat, mas não tem nada a ver – na verdade, às vezes até complica mais (risos). Mas pronto, isto acaba por ser um canal aberto para os artistas chegarem às pessoas que gostam deles e que nem sempre têm a hipótese de os verem.

Será este um formato de compromisso para o presente, ou no futuro acabará por ficar, independentemente de se poder retormar a normal actividade dos concertos?

É de facto um compromisso, é a solução de recurso. Por enquanto. Tem como já disse o lado positivo de permitir alcançar fãs que de outra forma não seria possível: pessoas que estão noutros países, noutros continentes, noutros horários, que têm dificuldades… É que mesmo em tournée os artistas não conseguem ir a todo o lado. Esse lado pode ficar no futuro. Pode ser um bom formato para fazer apresentações, lançamentos, coisas novas: não tem grande peso económico, não implica grandes despesas. Por esse lado, será mais um canal de divulgação.

Como é que tem sido desenhada a linha de programação? Do hip hop ao fado e do rock às músicas do mundo tem havido espaço para muita coisa…

A ideia é simples: é que esta Casinha seja completamente aberta. É uma caixa negra em que tudo pode acontecer: já houve magia, música. Espero vir a ter teatro e dança, porque todas essas manifestações ficaram sem espaços. Tenho sentido muita alegria por parte das pessoas que por lá têm passado: não só estavam há muito tempo sem tocar, como agora podem finalmente mostrar coisas novas, sem estarem agarrados aos concertos de pijama, em casa. Nada contra isso, quem o desejar que o faça. Mas isto assim é outra coisa. Tem sido esse o feedback. Tenho gostado muito dos concertos, dos nervos que todos eles sentem, do seu empenho. Espero que isto seja como as sementes das ervas daninhas, que vão parar a todo o lado.

Até quando estará esta Casinha de portas abertas?

A programação de Setembro está quase fechada. Tivemos bastante gente do fado em Agosto e terei que fazer novo apelo para essa malta, porque a palavra passou. Andamos todos a navegar à vista e, portanto, não sabemos bem como vai ser: mas para já parece que até 30 de Setembro vamos fazer coisas. Será o João Afonso nessa data, que para mim é importante, porque representa a baliza de um Verão que fecha e espero que no Outono e Inverno se possa fazer mais e diferente. Estamos prontos. Temos muitos pedidos, os nossos apoios – GDA, M80, etc – continuam de pé, por isso vamos ver.